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(Life On Earth)

Um filme de Abderrahmane Sissako
Selecionado para a quinzena dos diretores em Cannes 1998

Co-produção: La Sept Arte e Haut et Court  como parte do Projeto Missão para Comemorar o ano 2000

Mali, 1998 ­ 61 min

FICHA TÉCNICA:

Diretor: Abderrahmane Sissako
Roteiro: Abderrahmane Sissako
Conselheira de Arte: Marie Jaoul de Poncheville
Som: Pascal Amant
Editor: Nadia ben Rachid
Elenco: Abderrahmane Sissako
            Nana Baby
            Mohamed Sissako
            Bourama Coulibaly
            Keita Bina Gaousso
            Mohamadou Dramé

SINOPSE:

Na véspera do ano 2000, Abderrahmane Sissako, um cineasta da Mauritânia que vive na França, retorna a Sokolo, uma pequena vila em Mali para se encontrar com seu pai. "Querido pai, volto a Sokolo com o desejo de filmar a vida lá, a vida na terra, e também com vontade de sair daqui; logo será o ano 2000 e nada terá melhorado. Você sabe disto melhor que eu", escreve ele da França.
 Sissako chega à aldeia, muda de roupa, pega a bicicleta e vagueia pelas ruas, os campos, os espaços abertos e o correio. Ele se encontra com Nana, uma jovem que está de passagem. Algo sutil e cheio de vida surge entre eles,
enquanto a vida continua na vila.

SOBRE O DIRETOR

 Nascido na Mauritânia, fez seu treinamento no Instituto Cinematográfico de Moscou e trabalhou na França. Sissako sempre usa a África como o centro de seu trabalho, elaborando suas narrativas com luzes e cores de seu continente, embora o assunto principal de seus filmes seja o exílio, que ele ilustrou brilhantemente em "Outubro", seu filme mais famoso, feito na União Soviética e premiado em vários festivais. Depois disto dirigiu "Sabrya" e "Rostov- Luanda". Sua perspectiva milagrosamente incorpora ficção e documentário, política e poesia, e nos oferece a visão mais sincera do continente africano dos últimos anos.

ENTREVISTA COM O DIRETOR

 Quando você foi convidado a participar deste projeto de filmes que celebrassem o ano 2000, qual foi sua reação?
 
 Minha primeira reação foi de alegria, felicidade, mas logo seguida por um senso de responsabilidade, pois entendi que estaria fazendo, até certo ponto, o filme sobre o continente. Só há um filme africano no projeto, e isto não me colocava numa situação muito fácil. Hoje, no limiar do ano 2000, tenho a convicção que há uma nova geração tentando construir um mundo melhor. O século que se encerra foi terrível para meu continente e o trauma ainda subsiste, mas o mais importante é começarmos a construir desde agora, e juntos. 
 
 Este projeto é muito atípico pois não há roteiro e o filme é gerado enquanto feito. Como nasce um filme assim?
 
 Nem sempre este caminho é válido. Mas, neste caso particular, estando em Paris, tornou-se claro para mim que se eu inventasse algo, me distanciaria da verdade e que a realidade de todo dia seria muito mais forte do que qualquer coisa imaginada. Parti, então, na direção em que o constrangimento me empurrava: nada de roteiro, equipe pequena, um horário apertado de filmagem. Mas do momento em que a idéia inicial era contar ao meu pai que eu iria visitá-lo, a estrutura de partida seria esta: dar um passo `a frente, rumo ao desconhecido. Cada encontro durante a filmagem se transformou num elemento dramático. O encontro com Nana, por exemplo, foi totalmente casual: ela entrou de bicicleta numa locação. Antes disto o personagem não existia. Havia uma vaga idéia de que haveria uma mulher, nada mais que isto.
 
Seu filme é bem político. As citações de Aimé Césaire que pontuam o filme são dirigidas especificamente a um público ocidental. Qual é a mensagem que você quer passar?
 
 Aimé Césaire tem sido um apoio para mim em toda minha vida. É um autor que leio e releio. Outro autor importante para mim foi Frantz Fanon. No livro "Pele Negra, Máscaras Brancas" ele diz: "a explosão não terá lugar hoje, é muito cedo ou tarde demais. Não venho com verdades memoriais. Entretanto, seria bom que certas coisas fossem ditas. Estas coisas eu digo, não grito, pois faz muito tempo que o grito saiu da minha vida. Porque escrever este livro? Ninguém me pediu para escrevê-lo, especialmente aqueles a quem ele se dirige". O filme, me parece, não é dirigido a ocidentais ou europeus de hoje, mas simplesmente a todos. Não vejo como posso ser contemporâneo e positivo se começo falando em culpa. Isto deve ser evitado. Sou um cidadão do mundo e me dirijo ao mundo.
 
 Uma coisa muito impressionante no filme é o uso das comunicações _seja o rádio ou o telefone _ nesta vila pequena, completamente isoladas. Fale-nos mais sobre este aspecto.
 
  Como os personagens do filme dizem, "comunicação é uma questão de sorte. `As vezes funciona, `as vezes não". Mais importante que a mensagem em si é o ato de querer se comunicar, a tentativa de se chegar ao outro. Mesmo que o outro não ouça nada porque a comunicação é ruim, ele fica sabendo que num certo momento do dia alguém tentou falar com ele. O rádio, na `Africa, é um companheiro. A gente escuta sem ouvir, ouve sem escutar. `As vezes é só um meio de mostrar-se moderno: a aldeia não está distante do mundo, está em comunicação pelas ondas do rádio.
 
 O que o ano 2000 representava para você quando era jovem?
 
 Pertenço a uma cultura na qual somente com 15 anos aprendi que tinha nascido dia 13 de outubro. Isto quer dizer que por aqui as datas tem outro valor. Temos uma percepção diferente do tempo. Pessoalmente, não desejo que o ano 2000 fique marcado como o século da Àfrica, mas do mundo inteiro, e que todos aqueles que sofrem, sofram menos. 

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