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| Na grande família Faria, Roberto ganhou um "s" adicional devido a um erro do tabelião. Mas o que ele sempre teve demais foi paixão pelo cinema. Nascido em Friburgo, RJ, em 1932, aos três anos de idade já fugia de casa para ver um filme. Como todo cineasta embrionário, fazia seu "cineminha" com caixas de sapatos e apaixonou-se desde cedo pela fotografia. Depois de cursar Belas Artes, iniciou-se na Atlântida, levado pela mão de Watson Macedo, como assistente de direção em Maior que o Ódio, de José Carlos Burle, em 1950. Daí em diante, aprendeu tudo com os mestres da chanchada: Macedo, Burle, J.B.Tanko, os fotógrafos Edgar Brasil e Amleto Daissè, entre outros. O trabalho como assistente de direção ou produtor executivo em dez filmes, durante sete anos, deu-lhe segurança bastante para experimentar, ele próprio, a direção na comédia Rico Ri à Toa, de 1957, seguida por No Mundo da Lua. Farias rejeita o rótulo de chanchada, preferindo chamar suas primeiras experiências de "comédias populares". Em 1960, o cineasta muda o tom com o policial Cidade Ameaçada, que lhe deu vários prêmios, representou o Brasil em Cannes e revelou um diretor tão versátil quanto competente. Após o interregno representado pela comédia musical Um Candango na Belacap, chegava o primeiro ponto culminante na carreira de Roberto Farias: o clássico thriller O Assalto ao Trem Pagador. Acolhido com entusiasmo por críticos, platéias e festivais, O Assalto... fixou um padrão para o policial brasileiro, na confluência das tradições narrativas americanas com os temas nacionais. Seu filme seguinte, Selva Trágica, aproximou-o dos ventos revolucionários que percorriam o Cinema Novo. Mas já em 1966, nova guinada levava Farias de volta para a comédia de êxito comercial, com Toda Donzela Tem um Pai que é uma Fera. Já então havia fundado, com os irmãos Reginaldo e Riva Faria, a produtora R.F.Farias, uma das mais importantes do país e quartel-general de uma numerosa família cinematográfica. Ainda nos anos 60, participou da criação das distribuidoras Difilm e Ipanema Filmes, confirmando sua imersão vertical em todo o processo do cinema. A trilogia Roberto Carlos, com produções de envergadura inédita para o cinema brasileiro da época, selaram definitivamente o nome de Roberto Farias entre os mais populares do setor. O documentário O Fabuloso Fittipaldi, de 1970, concluiu um ciclo na trajetória do cineasta, que se dedicaria por bom tempo a outra vertente de seu talento: pensar a estrutura da indústria cinematográfica brasileira. Foi presidente do Sindicato Nacional da Indústria Cinematográfica e o primeiro cineasta a dirigir a Embrafilme. Em sua gestão, de 1974 a 1979, instituiu critérios sólidos para análise de custos e acesso de novos realizadores aos financiamentos, além de promover a maior onda de sucessos de bilheteria do cinema nacional desde a época das chanchadas. O retorno à direção, em 1982, não poderia ser mais poderoso. Pra Frente Brasil descia aos porões do regime militar com audácia surpreendente, desafiava a censura e colocava à prova a abertura política na área cultural. Quatro anos depois, fisgado uma vez mais pela comédia, ele realizaria Os Trapalhões no Auto da Compadecida, tido pela crítica como o melhor filme na história do quarteto. Eclético e sempre aberto ao "cinema possível" em cada momento, Roberto Farias tem-se dedicado ultimamente à televisão. Na TV Globo, dirigiu minisséries como As Noivas de Copacabana, Contos de Verão, Menino de Engenho e Memorial de Maria Moura, além do programa Você Decide. Assim que for possível, ele promete refazer o caminho de volta ao cinema, com O Hóspede Americano, sobre uma expedição conjunta de Theodore Roosevelt e o Marechal Rondon pela selva amazônica. Fruto igualmente importante do itinerário de Roberto Farias é a herança que
passou aos filhos cineastas Mauro, Lui e Maurício. O cinema corria, de fato, nas veias. |