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Não poderia ser menor um livro sobre a vida e a obra de um dos mais importantes nomes da história do cinema brasileiro. De autoria da pesquisadora e professora da UFF Tereza Ventura, 34 anos, o calhamaço de mais de 600 páginas intitulado "A Estética Polytica de Glauber Rocha" será publicado pela Funarte dentro de no máximo três meses. Recheado com cerca de 200 fotos, o livro, que terá o prefácio assinado por Márcio de Souza, é uma fusão harmoniosa entre biografia e ensaio sobre a trajetória do polêmico e genial cineasta baiano, morto em 1981, aos 42 anos.

"O livro é uma matéria que se narra e que se chama Glauber. O que fiz foi seguir as pistas deixadas por ele, como no fluxo de um rio sem margens. Foi uma descoberta para mim. Eu fui me surpreendendo com ele a cada passo", explica Tereza, que partiu de sua tese de doutorado pela USP, sobre as atividades de Glauber durante os anos 50 e 60, para escrever "A Estética Polytica". O livro demorou quatro anos para ser concebido e contou com um extenso trabalho de pesquisa em bibliotecas e arquivos do Rio de Janeiro, São Paulo, Bahia, Brasília, França, Portugal e Cuba, além de entrevistas com uma centena de personagens fundamentais da vida de Glauber. "A mãe dele, dona Lúcia, foi imprescindível para a minha pesquisa. Ela tem tudo o que se deseja saber sobre ele, um verdadeiro tesouro guardado no Arquivo Tempo Glauber, que infelizmente não é preservado como deveria", diz Tereza.

Grande parte da narrativa de Tereza focaliza a produção intelectual do diretor de "Deus e o Diabo na Terra do Sol", anterior e paralela à sua produção cinematográfica. Segundo a autora, este foi um dos principais motivos que despertaram nela o interesse em se voltar para Glauber como objeto de estudo. Para tanto, ela se viu diante de poemas, contos, peças, resenhas de cinema, de literatura e textos e livros capitais do pensamento glauberiano, como "Estética da Fome", "Revisão Crítica do Cinema Brasileiro" e "Revolução do Cinema Novo", entre outros. "É fascinante a quantidade de textos, críticas e artigos de conteúdo que ele escreveu, não só como cineasta, mas como alguém que pensou todo o tempo a questão da identidade nacional. Mesmo no exílio, ele continuou fazendo do Brasil um tema permanente de sua obra, passando a integrar um grupo de pensadores da cultura brasileira, ao lado de autores como Oswald de Andrade, Euclides da Cunha e Guimarães Rosa", analisa Tereza, que também mapeou em seu trabalho os diferentes contextos pessoais e históricos em que os filmes de Glauber foram rodados. Em um artigo sobre um romance de José Lins do Rego, o futuro diretor, que ainda não tinha completado 20 anos de idade, deixa transparecer o caráter de seu posicionamento crítico: "(...) Conhecer o Brasil, seu tema, sua cultura, sua história e sua sociologia, não é ufanismo. Conhecer sua arte é um dever de quem se supõe intelectual (...)".

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A complexidade interna de Glauber Rocha exigiu de Tereza um esforço empenhado e itinerante no caminho de seu entendimento. Além de Vitória da Conquista, onde nasceu o cineasta, em março de 1939, a pesquisadora percorreu diversos outros lugares por onde ele passou. "Eu fui acompanhando ele, seguindo o seu percurso e as várias fases de sua vida. Eu viajei com o Glauber na minha cabeça", afirma a autora, que se disse impressionada com o reconhecimento do valor de Glauber na Europa. "Em Paris e em Roma, existem inúmeras teses acadêmicas sobre a sua obra. Ele é muito respeitado fora do Brasil. Sintra, em Portugal, é o único lugar do mundo
que tem uma rua com o nome dele".

Muito do alcance internacional da obra do realizador de "O Dragão da Maldade contra o Santo Guerreiro" se deve à importância do movimento cinemanovista, do qual Glauber foi um dos maiores articuladores. No livro, Tereza discute o Cinema Novo desde o seu surgimento, com "Rio, 40 graus", de Nelson Pereira dos Santos, até sua incompreensão por parte de certos setores da esquerda dos anos 60, sempre sob a ótica da participação direta e efetiva de Glauber. Para ele, a linguagem do Cinema Novo deveria se prestar a um projeto intelectual e artístico de consolidação de uma identidade genuinamente nacional, libertária e descolonizada de intereferências estrangeiras. Tal objetivo poderia ser alcançado por um cinema que combinasse uma poética criativa e inovadora e um engajamento político determinante. E é aqui que se revela um dos mais significativos conflitos do diretor baiano, responsável pelo nome do livro de Tereza ("O y de polytica foi uma forma pessoal de homenagear a descontrução da linguagem glauberiana"): sua oscilação constante entre a estética e a política, buscando fundi-las em um propósito idealista de expressão da cultura brasileira. Em uma carta a Paulo César Saraceni, reproduzida parcialmente em um dos capítulos, Glauber afirma: "(...) O Brasil de hoje não tem lugar para o artista romântico, e sim para o artista revolucionário. Mas não um revolucionário da arte, e sim da própria história.
Estética, hoje, é uma questão de política (...)".

"Glauber era revolucionário e conservador ao mesmo tempo", aponta a pesquisadora. "Revolucionário pelas ambições que ele manifestava em realizar uma linguagem cinematográfica arrojada. E conservador um pouco pela maneira que ele encarava o povo, ao qual não creditava uma capacidade intríseca de mudança e transformação social, como fica claro em 'Terra em Transe', por exemplo". Variações deste conflito aparecem em parte no final da vida de Glauber, quando ele foi bastante incompreendido e acusado pelas relações que manteve com determinados segmentos militares. "O ministro Golbery do Couto e Silva e o presidente Geisel intercederam a seu favor na liberação de recursos da Embrafilme para 'A Idade da Terra'. Muita gente não entendeu direito esse tipo de atitude e ficou contra ele", lembra Tereza.

Mesmo mergulhada até o pescoço em seu pensamento intelectual, foi pela verve artística visceral de Glauber Rocha que Tereza mais ficou cativada ao pôr um ponto final em seu trabalho. "Ele foi um artista completo, dotado de uma ética pessoal muito forte. Arte para ele era devoção, e não mera profissão. Sua dignidade é fruto de um profundo compromisso com o processo criativo. O olhar dele multifacetado e rico de opiniões era muito peculiar. Se ele só tivesse sido um intelectual eu não teria feito o livro". A autora considera simbólica a circunstância do falecimento do cineasta, cujo coração continuou batendo intensamente quatro horas depois de sua morte cerebral. "Até o último momento, a poética vencia a razão, salvando sua morte e o transformando em herói, mito e obra. Pessoas como o Glauber não têm mais lugar no mundo globalizado e tecnológico de hoje. Ele é um personagem
que não se repete". Para quem quiser entrar em contato com Tereza Ventura, em busca de mais informações sobre o assunto, seu e-mail é terezav@gbl.com.br.

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Tereza Ventura

 

 

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