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Pesadelos alemães


Mais do que um movimento estético, o expressionismo alemão do início do século foi uma espécie de estado de espírito comportamental. Fruto de uma conjunção de fatores localizados em um momento histórico de pessimismo e ceticismo, sobretudo em função do trauma da Primeira Guerra Mundial, o expressionismo surgiu em resposta ao enfoque lírico da realidade produzido pelo impressionismo. Os reflexos da angústia humana traduzida pela arte expressionista nasceram na pintura (com fortes evidências em Van Gogh, ainda no século passado), e logo se estenderam pela música, pelo teatro, pela literatura e pelo cinema.

Embora geograficamente disperso pela Europa em um primeiro, foi na Alemanha que o expressionismo ganhou força e identidade de um movimento legítimo. Ao final da Primeira Guerra, o ambiente era mais do que propício para a germinação de sentimentos de desterro e negativismo. Falida e derrotada, a Alemanha era habitada pelo medo, pela insegurança, pela instabilidade e pela falta de perspectivas em relação ao futuro. Foi esta imagem que a lente do cinema mudo alemão capturou, de maneira tanto realista quanto alegórica, em algumas obras-primas que impressionam até hoje pela sua atualidade e pela elaboração de sua linguagem narrativa.

Embora o chamado cinema expressionista alemão tenha começado em 1919, com "O Gabinete do Doutor Caligari", de Robert Wiene, a indústria cinematográfica naquele país já havia experimentado um período de considerável produtividade nos anos anteriores. Com o fechamento das fronteiras durante a guerra, os produtores alemães se viram forçados a preencher o mercado interno com filmes próprios, a fim de não perderem o público. Em seu livro "De Caligari a Hitler", um panorama sobre a história da cinematografia germânica da primeira metade do século, o autor Siegfried Kracauer aponta que o número de produções nacionais cresceu de 28, em 1913, para 245, em 1919. Em 1917, o Governo criou a Universum Films AG (UFA), que em pouco tempo se tornou a maior e mais influente companhia produtora da Alemanha, reunindo nomes fundamentais entre diretores, câmeras e atores. A iniciativa correspondia ao desejo de reforçar a qualidade de elaboração dos filmes, realizados em geral apenas à imagem e semelhança de modelos estrangeiros.

Mas é com "Caligari" que o cinema alemão ganha real autenticidade narrativa. A história de um jovem sonâmbulo (Conrad Veidt) utilizado para cometer assassinatos a mando de outra pessoa refletia o envio então recente de soldados às trincheiras da Primeira Guerra por autoridades militares. No filme, Wiene retrata o sentimento de dor e descrença da sociedade alemã por meio uma metáfora eficiente, lúgubre e cujo significado permanece até os dias de hoje. Ao lado de Robert Wiene (1881-1938), diretores como Fritz Lang, Georg Pabst e Friedrich Murnau foram fundamentais para a consolidação estética e artística do expressionismo nas telas da Alemanha ao longo das décadas de 20 e 30. Em uma época de desolação e pessimismo profundos, alguns dos cineastas mais importantes da história fizeram de seus filmes sombrios obras luminosas, cujo brilho não se apagará jamais.

Em uma Alemanha em crise e angustiada, o cinema mudo expressionista ergueu-se como um movimento marcado pela originalidade e pela inovação da linguagem. A estética dos filmes realizados neste período, refletindo o sentimento coletivo de desolação, era sombria, fundamentada sobretudo no contraste entre luz e sombra. Também os movimentos de câmera, os ângulos das tomadas e a estrutura dos cenários contribuíam para se evidenciar o contexto tenso e pesaroso que o país atravessava. A maioria deses filmes data de 1919 até o início dos anos 20. Na década de 30, muitos dos diretores mais importante (como Murnau, Lang, Pabst e Ernst Lubitsch) trocam a Alemanha nazista pelos Estados Unidos.

Apontada por Lotte Eisner, em seu livro "A Tela Demoníaca", como "o maior cineasta que os alemães jamais tiveram", Friedrich Murnau (1888-1931) é talvez mais lembrado hoje pelo clássico do vampirismo "Nosferatu – uma sinfonia do terror" (1922), uma das sínteses mais perfeitas da cinematografia expressionista. Morto precocemente aos 42 anos em um acidente de automóvel, Murnau também realizou, entre outros, "A Última Gargalhada" (1924), em colaboração com Carl Meyer, e "Tabu" (1931), com o documentarista Robert Flaherty, este último rodado nos Mares do Sul.

Outro expoente do expressionismo foi o austríaco Fritz Lang (1890-1976), autor da obra-prima "Metropolis" (1926), um causticante e aterrador retrato da sociedade do futuro. O filme foi o mais caro realizado na Alemanha até então, em uma produção de mais de cinco milhões de marcos, 800 atores, 30 mil extras e uma filmagem de quase um ano inteiro. O tema do vampirismo também foi abordado por Lang em "O Vampiro de Düsseldorf" (1931). Entre outros títulos de sua fase alemã, ele ainda filmou "M" (1931), seu primeiro filme sonoro, e "O testamento do Doutor Mabuse", entre outros. Considerado um mestre da montagem, Lang concretizava muitas de suas idéias expressionistas através de recursos como o uso de espelhos, corredores e escadarias, e a alternância entre planos claros e escuros a fim de ressaltar os conflitos internos e as perturbações dos personagens.

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Fritz Lang

 

 

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Metropolis

 

 

 

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Robert Wiene

 

 

 

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O Gabinete do Doutor Caligari

 

 

 

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Friedrich Murnau

 

 

 

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Nosferatu