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Cinema Observatório

Juliano Tosi

Em sua sexta edição, a Mostra Internacional do Filme Etnográfico – a ser realizada na semana entre os dias 27 de agosto e 2 de setembro nas salas do Estação República e do Museu do Folclore – continua, apesar do caráter internacional declarado no título, um terreno privilegiado para o documentário brasileiro dos nos 90 – com Cine Mambembe, o Cinema Descobre o Brasil, filme de estreantes, sendo um bom representante do espírito e da mentalidade dessa escola que pretende olhar de novo para o Brasil, e com um novo olhar, em busca de um país íntimo, idéia que se encaixa à perfeição ao conceito de filme etnográfico.

 

Cine Mambembe, dos diretores Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi, é uma viagem de 15 mil quilômetros pelo interior do Brasil, feita pelo simples e reacendido desejo de se redescobrir um país esquecido pela mídia. Na bagagem, os dois levavam um projetor 16mm, uma pequena tela, equipamento de som e um gerador, para exibirem aqui e ali alguns curtas-metragens nacionais. É uma longa jornada que começa em São Paulo, se estende pelo sul da Bahia, o sertão de Alagoas, Pernambuco, Piauí e Maranhão, passa pelo Tocantins e termina na Amazônia, atravessando no caminho aldeias indígenas e diversas cidades sem uma única sala de cinema. Com uma câmera de vídeo digital, eles documentaram nesse pequeno road movie a viagem: as sessões nas praças públicas, as reações das pessoas, que até há pouco não conheciam o cinema, gente que via um filme pela primeira vez e ali estava a ser observada e entrevistada – um resultado espantoso, o retrato de um país desencavado, cinema em estado de pura observação.

Não se trata, contudo, de um olhar naturalista, mas antes de uma certa discrição do lugar de escuta, de um olhar sobre a realidade registrado mais por seu ponto de vista humano, em um processo reconhecimento de outras culturas – enfim, uma fabulação de identidades à maneira de um Eduardo Coutinho. Uma tendência de, para usar a expressão de Hélio Pellegrino, "pegar na jugular da brasilidade" e que pode ser evidenciada por alguns títulos dos programas dedicados à produção nacional recente: A Pessoa é para o que Nasce, de Roberto Berliner, curta sobre a experiência de vida de três irmãs cegas que vivem de cantar nas ruas de Campina Grande, Paraíba; Chapéu Mangueira e Babilônia, realizado por Consuelo Lins, revelador retrato sobre o cotidiano das duas favelas fundado sobre depoimentos de seus moradores; ou Saara, filme de estudante dirigido por Thiago Scorza e Ana Rieper, pequena colagem sobre o universo de personagens singulares que é o comércio na rua da Alfândega. Ou ainda por dois documentários do premiado João Moreira Salles: a série Futebol, co-dirigida por Arthur Fontes, terá exibição do seu primeiro episódio, que narra a estória de obstinação de três jovens aspirantes a jogador profissional; e Notícias de Uma Guerra Particular, trabalho sobre a violência no Rio de Janeiro, descrita através de entrevistas com seus diversos protagonistas – policiais, lideranças e ex-lideranças do mundo do crime, moradores dos morros, traficantes e especialistas diversos. Detalhe: após a sessão especial de Notícias (dia 2, às 19:00, no Edifício Gustavo Capanema, à Rua da Imprensa no 16), haverá uma mesa redonda com a presença do diretor.

Os programas de filmes vindos de fora igualmente reservam alguns achados para quem se der ao trabalho de fazer a garimpagem entre os 28 títulos. Bons exemplos são o francês Dis-moi, Mon Charbonier, de Sophie Audier, e o personalíssimo Le Départ, do belga Damien de Pierpont, ambos premiados no último Bilan du Film Etnographique. Black Tears, de Sonia Herman Dole, acompanha a turnê do octogenário quinteto La Vieja Trova Santiaguera e de certa forma promete antecipar para o público brasileiro o registro da velha música cubana feito por Wim Wenders em Buena Vista Social Club. Da Argentina chegam outros dois filmes que merecem a menção, dois filmes que buscam resgatar a memória do país: Los Pibes de la Película, vídeo de Pablo Ramazza que 40 anos depois retorna aos protagonistas de um dos clássicos do documentário social latino-americano, Tire Die, de Fernando Birri; e Pasaportes, dirigido por Inés Ulanovsky, que mostra a crise de identidade de filhos de exilados argentinos, jovens que passaram sua infância longe de seu país natal.

Como em toda mostra de filmes digna do nome, aqui também serão exibidos alguns programas consagrados à memória cinematográfica. De Aruanda (que faz 40 anos, e sobre o qual o crítico Paulo Emílio Salles Gomes disse certa vez que tem "o significado de um manifesto artístico") e Cajueiro Nordestino, os dois únicos filmes dirigidos pelo cinemanovista Linduarte Noronha, fundador do ciclo documental na Paraíba, pode-se afirmar que seriam destaque em qualquer mostra. A escola paraíbana também é tema da sessão que reúne Cabra na Região Semi-Árida, de Rucker Vieira, e Cinema Paraibano, levantamento de Manfredo Caldas sobre o pequeno mas significativo grupo de filmes realizado na região entre as décadas de 60 e 80. Um último programa dedicado ao Brasil revela em quatro pequenos curtas as raras imagens realizadas pelo documentarista Harald Schultz para a Encyclopaedia Cinematographica, projeto editado pelo Instituto do Filme Científico de Göttingen, na Alemanha, e que tinha como curioso objetivo "registrar as formas de comportamento dos seres vivos". Finalizando as retrospectivas, a apresentação de três filmes da série Os Navajos Filmam a si Próprios, experiência que buscava, segundo seus autores, "determinar se seria possível ensinar povos de cultura tecnicamente simples a fazer imagens animadas de sua cultura, a partir de um ponto de vista próprio" – e cujos resultados no fim se mostraram bastante complexos.

Os filmes selecionados concorrem a quatro premiações: Prêmio Manuel Diegues Júnior, concedido pelo terceiro ano seguido pelo Centro Nacional de Folclore e Cultura Popular / Funarte com o objetivo de incentivar a produção vídeo-filmográfica recente sobre folclore e cultura popular brasileiros; o Prêmio UNESCO e o Prêmio OCIC, oferecido pela Organização Católica Internacional do Cinema e do Audiovisual, ambos pela primeira vez na Mostra; e por fim o Prêmio GNT para Renovação de Linguagem, dedicado aos filmes e vídeos, nacionais ou estrangeiros, mais inventivos da Mostra.

Em tempo: a entrada para todas as sessões é gratuita.

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