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O cinema calado


A partir de um empenhado trabalho de pesquisa, Inimá Simões, jornalista e professor de cinema, traça um amplo painel das atividades proibitivas sobre o cinema no Brasil neste século em seu livro "Roteiro da Intolerância - A Censura Cinematográfica no Brasil" (editoras Senac SP e Terceiro Nome). Direcionada, objetiva e com um roteiro muito bem definido ao longo de suas 250 páginas, a obra de Simões passa a constituir título referencial para o estudo da censura na cinematografia nacional. Mas, além de sua importância documental, o livro tem ainda outros atributos.

Embora seja fruto de pesquisas realizadas em dezenas de revistas, periódicos, outros livros, publicações estrangeiras, arquivos e bibliotecas, além de entrevistas com nomes fundamentais para uma melhor elucidação do funcionamento da censura, "Roteiro da Intolerância" não se fecha em herméticas argumentações academicistas ou meros formalismos intelectuais. Muito menos se resume a uma listagem das obras prejudicadas por ações proibitivas. Ao contrário, o livro é capaz de tratar o sombrio tema da censura com propriedade, leveza e informação conjugados na medida certa para o leitor. Preenchido com fotos de cenas de filmes e filmagens, o livro se revela interessante mesmo para quem não morre de curiosidade pelo assunto. Em outras palavras, "Roteiro da Intolerância" não é para ser lido apenas por cinéfilos, e sim por quem aprecia um texto cuidadoso, ágil, fluido e mesmo descontraído.

A bem da verdade, muito da qualidade do livro se deve à própria riqueza do tema. Várias histórias são tão ridículas quanto curiosas. Ainda que Inimá enfatize a censura exercida no cinema durante o regime militar, entre 1964 e 1985, ele mostra que a prática estatal de retalhar e amputar filmes é comum no Brasil desde o começo do século. A partir de alguns exemplos ainda anteriores aos anos 20, o autor aponta a "santíssima trindade" das justificativas que passariam a nortear a lógica censória até tempos recentes: ameaça aos bons costumes, ofensa a uma instituição do estado e intromissão na privacidade alheia.

Uma amostra generosa de títulos estrangeiros, aos quais puderam ser aplicados esses e outros argumentos, também consta de "Roteiro da Intolerância". É o caso de "Encouraçado Potemkin", obra capital de Eisenstein, acusada de conter alto grau de agitação política e que foi, portanto, devidamente proibido pelos sucessivos governos militares. "Laranja Mecânica", de Stanley Kubrick, "O Grande Ditador", de Charlie Chaplin, "Z", de Costa Gavras, "O Último Tango em Paris", de Bernardo Bertolucci, "Alphaville", de Jean-Luc Godard, "Casanova", de Federico Fellini, e "O Império dos Sentidos", de Nagisa Oshima, são alguns dos outros filmes estrangeiros cuja exibição no Brasil foi impedida, ou dificultada de alguma forma, pela tesoura da censura.

Na cinematografia nacional, são muitos os exemplos, analisados no livro, de longas-metragens comprometidos pelas avaliações de censores. Alguns casos chegam a ultrapassar o limite do patético e do absurdo. "Rio, 40 Graus", de Nelson Pereira dos Santos, parcialmente ambientado em uma favela (consonante com a estética do neo-realismo italiano) foi proibido sob o pretexto de que no Rio de Janeiro a temperatura não era tão alta. "Macunaíma", de Joaquim Pedro de Andrade (baseado no romance modernista de Mário de Andrade), foi assim encarado pelos agentes da censura: "(...) um preto que vira branco e vai para a cidade dar vazão aos seus instintos sexuais, voltando depois para a selva de onde viera". "Matou a Família e foi ao Cinema", de Júlio Bressane, foi tão execrado pelos censores que houve entre eles quem dissesse que "liberando este filme (...) o proprietário do cinema corre o risco de tê-lo apedrejado e um pânico poderá resultar".

Em vários momentos, Simões reproduz textos de ofícios em suas versões originais, deixando entrever uma certa intenção irônica face à precariedade não só da argumentação como do manuseio da linguagem pelos censores. "Os Cafajestes", de Ruy Guerra, ganhou a seguinte (e literal) consideração de José Augusto Costa, ex-zagueiro do Vasco da Gama e da Seleção de 1950: "O filme aborda um tipo de chantagem feita por certos tipos de marginais no Rio de Janeiro. A chantagem fotográfica onde moças da sociedade são fotografadas nuas e a par disso se faz uma crítica a sociedade mostrando aspectos de sua degradação moral onde alguns de seus componentes se misturam e tem os mesmos vícios dos marginais (...) na renovação da censura que o filme ora se pretende, estranhei que os cortes por mim recomendados em sua primeira censura não fosse obedecido (...)".

"Roteiro da Intolerância" não é um livro imparcial ou neutro, apesar de seu caráter jornalístico. O autor não pretende apenas apresentar uma situação e esperar que o leitor tire suas próprias conclusões. O que ele deseja é fazer com que se entenda a arbitrariedade da prática censória, a partir de uma infinidade de situações reais em que a arte cinematográfica viu-se prejudicada pela tesoura da proibição e da intolerância. Mas nem com o fim do regime militar e a Consituição de 1988, a censura parece de todo erradicada. "Sempre existirão grupos, categorias, organizações ou associações dispostas _ em nome de um pretenso saber ou de uma visão de mundo _ a impor restrições à livre circulação de idéias e produtos culturais e artísticos no ambiente social", observa Simões, ao final do livro, para logo depois lembrar a polêmica causada pelo lançamento de "A Última Tentação de Cristo", de Martin Scorsese. Contrária ao filme, declarou na época a deputada (constituinte) Sandra Cavalcanti: "Está dito que não pode haver censura política, ideológica e artística, mas podemos fazer uma censura do ponto-de-vista ético, moral ou religioso". Como se vê, até para entre os censores há espaço para o jeitinho brasileiro.

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