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Alguns críticos costumam dizer que não há obras, apenas autores.
Pois bem, em se tratando de cinema, essa afirmação nunca foi mais verdadeira do que no
caso de François Truffaut: raras vezes vida e obra se relacionaram de forma tão intensa.
"O filme de amanhã será ainda mais pessoal que um romance, individual e
autobiográfico como uma confissão ou um diário", já anunciava precocemente
Truffaut em seus tempos de jornalista. Seu universo de cineasta é antes de tudo o
ambiente de uma família de personagens, uma família da qual Antoine Doinel, seu alter-ego
assumido, é o emblema mais evidente e duradouro um ciclo de cinco filmes,
atravessando duas décadas recheadas com episódios e lembranças de sua juventude.
Em Beijos Proibidos, terceira das
aventuras do personagem Doinel, a esta altura aos 24 anos, o encontramos saindo da prisão
militar, voltando às ruas de Paris depois de desertar e providencialmente ser reformado
por "instabilidade de caráter". E, mais uma vez, para construir a estória
Truffaut vai buscar material em sua própria vida: agora, o rompante que, por um desgosto
amoroso já narrado em Antoine et Colette (episódio do longa O Amor aos Vinte
Anos), o leva a se alistar no exército. Uma vez em liberdade, e tendo que se virar
para viver, o que vemos na tela é um personagem bastante desajeitado e anacrônico,
inadaptado ao mundo contemporâneo, mas ainda assim abusando de seu charme e sua
vivacidade Jean-Pierre Léaud, à sua maneira única de atuar, se insinuando diante
da câmera com uma presença e um humor extraordinariamente carismáticos. Assim sendo, Beijos
Proibidos é a crônica nostálgica e das mais simpáticas e engraçadas desse jovem
herói romântico, fora de seu tempo e sempre em dificuldade para se ajustar à vida, às
mulheres que tanto ama e aos diversos trabalhos temporários que consegue.
Logo nas primeiras cenas do filme,
percebemos que Truffaut vinha agora buscar inspiração na ligeireza cômica e na
liberdade de tratamento de Lubistch e Renoir, abandonando o rigor na construção
hitchcockiano de Fahrenheit 451 e A Noiva Estava de Preto, suas fitas
anteriores, e deliberadamente se lançava sobre a improvisação e a fantasia dos pequenos
acontecimentos da vida, da realidade cotidiana. Essas referências de forma alguma são
fortuitas, sobretudo se prestarmos atenção aos trabalhos de Doinel. Nas cenas da
sapataria, é evidente a evocação à atmosfera e ao humor típico e um tanto leve do
Lubistch de A loja da Esquina. Assim como a maneira de Truffaut se aproximar da
tradição do espetáculo cômico francês vem da recusa do realismo psicológico, de
certa gratuidade dos comportamentos e da grande improvisação dos atores durante as
filmagens, a agência de detetives remetendo aos "pequenos mundos" de Renoir,
notadamente o de O Crime do Monsieur Lange.
Os filmes de Truffaut podem ser vistos
como um cinema da memória, da nostalgia do cinema de seus mestres, mas também de uma
época da vida que se perdeu:: "Minhas fitas e mais particularmente Beijos
Proibidos são cheias de recordações e se esforçam em ressuscitar as
recordações de juventude dos espectadores que o vêem". De fato, mais do que em
seus outros filmes, em Beijos Proibidos Truffaut faz o luto de seu mundo ideal, o
tom melancólico incarnado em Que Reste-t-il de nos Amours, canção de Charles
Trenet que ouve-se durante os créditos e de onde foi tirado o título original do filme, Baisers
Volés (ou beijos roubados). "Há trinta anos", conta Truffaut, "eu li
um artigo bastante violento contra Charles Trenet: Esse senhor que aí já estava
desde a guerra com um cravo na lapela... Houve a guerra, milhões de mortos, e ele retorna
à cena com seu chapéu e seu cravo... Isso me fez adorar Charles Trenet, é meu
cantor preferido... As pessoas se obstinam a querer que tudo mude, enquanto eu amo os
teimosos. Eu amo os que são fiéis".
Em uma fita como Beijos Proibidos,
calcada em cima de personagens, bastante flexível e com freqüência reescrita no dia
mesmo das filmagens, os atores são fundamentais. E levando-se em conta, como se diz, que
a câmera é um bom detector de mentiras, podemos dizer que se o filme é um sucesso,
muito se deve creditar a seu incrível elenco, sua capacidade de se envolver, de tornar
sinceros e verdadeiros os sentimentos dos personagens, enfim, de fazer o espectador se
envolver e acreditar nos artifícios e fantasias da narrativa sobretudo para um
filme lançado em 1968, poucos meses após as greves de maio. Vale ressaltar as duas
mulheres por quem Doinel se apaixona: Claude Jade (que logo se tornaria noiva de
Truffaut), estreando no cinema como a jovem e bela Christine Darbon, e Delphine Seyrig,
como Fabienne, mulher de seu chefe. No entanto, usando a expressão de Truffaut,
Jean-Pierre Léaud é "a razão de ser do filme". Todo improviso e liberdade de
movimentos e de palavras, ele é mais do que um intérprete de Antoine Doinel., é também
um genial criador.
Há no filme
algumas cenas inesquecíveis, dignas de uma antologia: a experiência
de detetive que Antoine/Léaud conta de pé, cheio de gestos e astúcias
narrativas, como se fosse uma anedota, sobre a babá que fazia strip-tease;
seu pudor desmesurado diante da "aparição" Fabienne, a amante
de um único dia, escondendo-se sob o cobertor como uma criança quando
ela vem visitá-lo em seu quarto... Ou ainda o falso flagrante de adultério
no quarto de hotel, agindo com a melhor das intenções, mas sem conseguir
abandonar a incorrigível falta de jeito episódios que enriquecem
a narrativa, dando-lhe o tom não só ligeiro mas sincero com que se recriou
a intimidade dos personagens, produzindo também certa imprevisibilidade
nos acontecimentos, de forma que fica difícil imaginar a cena que vai
seguir a que vemos.
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Beijos Proibidos
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