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Homenagem a Delon

Alice Gomes

Alain Delon foi mais que um James Dean europeu com olhos azuis que vestia terno, gravata e sobretudo. Ele soube se aliar a diretores famosos e talentosos, produzir e dirigir filmes e ainda envelhecer com classe. Por essas e outras, ele se tornou um dos maiores mitos do cinema francês. Sempre com extrema habilidade, beleza e talento Delon interpretou diversos estilos, do fora-da-lei ao mocinho, seduzindo platéias do mundo inteiro e virando símbolo de beleza nos anos 60.

Numa industria cinematográfica onde muitas vezes basta ter um rosto bonito para se fazer sucesso mundial e se tornar um ídolo da noite para o dia, é preciso muito esforço ou perspicácia para alguém com uma beleza tão marcante como a de Delon provar que tem talento e é algo mais que um belo boneco de estúdio. "Não sou uma estrela, sou um ator. Venho lutando há anos para convencer as pessoas de que não sou apenas um rosto bonito. Acima de tudo sou um ator", costumava esbravejar Delon. Mas ele não ficava só se queixando e soube agir para tentar se libertar do estigma da beleza, sua maior proeza neste sentido foi saber produzir filmes e escolher as personagens que queria interpretar. Ele ainda foi além e se arriscou na direção em 1981 com Pour la Peau d’un Flic.

O Grupo Estação e o Consulado da França apresentam uma oportunidade para se ver ou rever alguns de seus filmes na mostra O Mito Alain Delon, que acontece de 9 a 15 de julho no espaço Unibanco de Cinema/RJ. O evento vai exibir dez filmes selecionados pelo Ministério das Relações Exteriores da França e pela Cinemateca Francesa, são eles: O sol por Testemunha (1959), de René Clément; Gângsters de Casaca (1963), de Henri Verneuil; O Samurai (1967), de J. P. Melville; Cidadão Klein (1976), Joseph Losey; A Piscina (1978), de Jacques Deray; Três Homens para Matar (1980), também de Deray; Pour la Peau d’un Flic (1981), primeiro filme dirigido pelo ator; Um Amor de Swann (1983), de Volker Schloendorf; Quartos separados (1984), de Bertrand Blier; e O Retorno de Casanova (1992), de Edouar Niermans. Todos os filmes estão legendados em espanhol, exceto Um Amor de Swann, que tem legendas em português.

Delon nasceu em Sceaux, na França, no ano de 1935, seus pais se separaram quando ele tinha apenas quatro anos de idade. O pequeno Alain foi adotado por um casal, mas não chegou a morar com eles durante muito tempo; seus pais adotivos foram assassinados poucos anos depois da adoção e ele teve que voltar a viver com sua mãe verdadeira e seu novo marido. Tudo isso fez dele uma criança problemática que mudou várias vezes de escola até completar 15 anos e parar de estudar. Certa vez, depois de famoso, Delon declarou publicamente não ter tido uma infância feliz. Aos 17 anos, saiu de casa para prestar serviço militar na marinha francesa, tendo servido na Indochina durante a fracassada batalha de Dien Bien Phu (1954).

Em 1956, foi morar em Paris e trabalhou como porteiro e garçom de cafés parisienses, onde se tornou amigo de atores e de criminosos. Sua ligação com o mundo do crime não foi admitida e conhecida então, mas seria investigada alguns anos mais tarde. A vida conturbada de Delon contribuiu muito para sua imagem midiática de Bad Boy, que seria constantemente reforçada e explorada nos vários filmes em que interpretou a imagem do bandido charmoso.

Sua carreira começou quase que por acaso quando, em 1957, foi visitar o Festival de Cannes com um amigo, o ator Jean Claude Brialy. Apesar de impressionante, sua beleza não era convencional para os padrões da época e ainda ganhava personalidade com as pequenas cicatrizes adquiridas em brigas de rua e durante a guerra. Os produtores e cineastas presentes no festival ficaram atentos para este rapaz desconhecido e logo estavam tentam descobrir quem ele era e para quem trabalhava. Um contrato de 7 anos em Hollywood foi proposto ao jovem rapaz pelo poderoso produtor americano David Selznick, mas Delon não aceitou a oferta, preferindo ficar na Europa para trabalhar em pequenas produções locais.

Ainda naquele mesmo ano ele fez sua estréia no cinema com o filme Quand la femme s’en mèle , de Yves Allégret. Alguns filmes se seguiram e em 58 ele contracenou com Romy Schneider em Christine, de Pierre Gaspard-Huit. Durante as filmagens Delon e Schneider começaram a ter um caso e em 59 foram morar juntos, numa união não-oficial que durou cinco anos.

O primeiro grande sucesso de Delon foi como o galã assassino Tom Ripley em O sol por Testemunha (1959), de René Clément, uma adaptação de um romance policial da escritora Patricia Highsmith. O filme foi apreciado internacionalmente, divulgando o nome e a figura de Delon aos quatro ventos. A partir daí ele não parou mais. Teve uma carreira extremamente profícua e durante a década de 60 fez uma média de dois filmes e meio por ano. Em O sol por Tetemunha, a beleza de Delon foi magistralmente explorada por Clément, o que, acrescentando a proximidade do ator com o diretor, fez nascer rumores de que os dois estavam tendo um affair. Juntos eles ainda fizeram mais três filmes: Que Alegria de Viver (1961), Jaula Amorosa (1963) e Paris está em Chamas? (1966). Clément é declaradamente o diretor preferido de Delon. A ambigüidade sexual de Delon sempre foi cercada de fofocas, embora ele próprio tenha admitido ter tido relações homossexuais nunca esclareceu nenhum detalhe e tampouco confirmou qualquer boato.

O êxito seguinte foi ainda maior e o filme se tornou um clássico, menos por Delon que pelo diretor, foi Rocco e seus irmãos (1961), de Luchino Visconti. Com Rocco a carreira de Delon ganhou uma nova dimensão. Visconti e ele tiveram uma boa relação durante as filmagens e se tornaram grandes amigos. Além de mais um filme, O Leopardo (1963), os dois ainda fizeram juntos uma peça de teatro, Fratello Crudele (1962). Foi a primeira experiência de Delon nos palcos, na qual ele não se saiu muito bem.

Seu próximo filme importante foi O Eclipse (1962), de Antonioni, depois foi a vez de Gângsters de Casaca (1963), de Henri Verneuil. Em 1965, Delon fez seu primeiro filme nos EUA, O Rolls Royce Amarelo, de Anthony Asquiith, com um elenco all star que incluía Shirley McLaine, Ingrid Bergman e Jeanne Moreau. Uma pequena série de filmes americanos veio logo em seguida, mas nenhum deles foi um grande sucesso e Delon voltou para Paris.

Em 67 trabalhou com Louis Malle em Histórias Extraordinárias e com Jean Pierre Melville em O Samurai. A década de 70 continuou sendo tão produtiva quanto a de 60 e só nos 80 Delon começa a fazer menos filmes. Cidadão Klein (1976), de Joseph Losey, foi um dos filmes produzidos por Delon para brilhar no papel principal com uma personagem mais complexa. Para Delon esta foi sua melhor atuação. Em 90, ele filma pela primeira vez com Jean Luc Godard, Nouvelle Vague. No ano passado o mito declarou seu afastamneto do cinema por estar decepcionado com os rumos do cinema francês, que estaria passando por um processo de espetacularização nos moldes da indústria norte-americana.

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