Estação Virtual

 

 


Ilda Santiago

Não, almoçar com a Fanny Ardant durante o Festival de Cannes não é um saco. Ela é "charmante", bonita e o sol na cobertura da Croisette onde o almoço aconteceu era maravilhoso. Claro que ela não estava sozinha, estavam também o Richard Berri, o Patrick Timsit, astros menos conhecidos no Brasil mas na França, famosíssimos. Depois, o clima de champanhe, muita champanhe traz glamour a qualquer situação e destrói o resto do dia de simples mortais que foram ao Festival para trabalhar. Como eu!!!

Aliás, os famosos citados acima estão num filme hilariante chamado Pedale Douce, o maior fenômeno de bilheteria na Franca, pegando um pouco carona em Priscilla, a rainha do deserto (mas quem não pegou?). Vocês vão ver na MostraRIO e vão amar...

 

Em regra geral, ir a Cannes é divertido, assim como ir a outros festivais. Mas existem inúmeros drawbacks para a sua fantasia (no entanto, é preciso manter esta fantasia viva na cabeça de quem nunca foi...):

1- sensação terrível de déjà-vu depois de alguns anos: tudo é igual, as pessoas são iguais, os astros são os mesmos, sai Madonna, entra Sharon Stone, até as novidades são iguais e cíclicas.
2 - tudo está sempre no mesmo lugar, começa a dar uma sensação de familiaridade que conforta mas destrói qualquer sentimento de nouveauté.
3 - preços sobem escandalosamente a cada ano o que vai dando a medida real da pobreza relativa (tudo é muito relativo em Cannes, chérie: um dia de limusine, outro de ônibus com acesso pelo crachá). Óbvio que a cada ano aprende-se melhor onde estão as bocas-livres que são aos milhares. Um amigo este ano tinha como princípio não pagar nada na Croisette durante 5 dias de festival. E conseguiu, até porque o único jantar pago quem bancou fui eu, sorry, quero dizer o Estação...
3 - papéis, muitos papéis, esta é a razão de nossas vidas em Cannes. Sem ler as revistas do dia não dá nem para se mexer. Quilos e quilos que sempre sobram na hora de fazer a mala, se traduzem em peso excedente no aeroporto e discussões em francês para liberação sem custo.
4 -  certeza total que não importa onde você esteja, você sempre está perdendo algo melhor em algum outro canto. Se está jantando com o Coppola deve estar perdendo um embalo de arromba com a Uma Thurman dançando. É sempre assim e faz parte da frustação inerente ao festival.

E TODOS, TODOS reclamam que o festival é muito longo, que não aguentam mais ir a tantas festas e acordar cedo para trabalhar, que tudo é muito caro, que nunca mais voltam porque este é DEFINITIVAMENTE o último ano. Ok, wanna make a bet on that??

O que odeio mesmo é fazer malas, carregar malas, desfazer malas e sempre, sempre achar que devia ter levado o longo de strass e/ou o biquini para a praia na Cote Dazur. Nunca teriam me servido para nada...

Mas falando só para vocês, apesar de toda a encheção de saco generalizada, nada, nada existe de melhor do que acordar às 6 da manhã e estar no Palais des Festivals para a sessão das 8 que emenda-se em uma às 11h e assim sucessivamente. Ver filmes é bom demais e meu sonho de consumo é ir à Cannes e só ficar dentro das salas de projeção. Sem conversas, sem reuniões, sem almoços. Para isso eu até abriria mão de jantar do lado da Catherine Deneuve. Mas isso já foi no ano passado !!!

 

NOTAS ESPARSAS SOBRE UM FESTIVAL ESCASSO (mas nem tanto!!)

 

NÃO CONCORDO que o festival deste ano foi sem graça, que não tinha nada de legal. Estas observações fazem parte da mesma linha de comentário do tipo "nunca fez tanto calor como este ano", "nunca vivemos uma época tão difícil" e coisas do gênero. Cannes foi o que dá para ser, com os cineastas que temos no mundo hoje, com a indústria feroz tentando banalizar qualquer obra.??

NÃO SE FAZ MAIS CINEMA COMO ANTIGAMENTE. E daí? Vou parar de ir ao cinema? Vou deixar de amar essa felicidade incrível que é ver um filme na sala escura? Tenho vídeo e posso ver os grandes clássicos de John Ford, Buñuel em fitas e posso continuar a ver as tentativas de driblar essa crise de criação mundial, o mundo blasé moderno.

MARAVILHOSO ter um stand brasileiro dentro do mercado em Cannes. O Grupo Novo de Cinema criou o point brasileiro dentro do Palais. Deixava-se recados, marcavam-se encontros, achava-se todo mundo por lá. Nota mil!!

VÁ E VEJA!! Vimos muitas coisas em Cannes. A maioria era legal mas sem trazer grandes arroubos de felicidade. Tudo isto vai estar na VIII MostraRIO, sucessora de grande dignidade da Mostra Banco Nacional de Cinema. Vocês não perdem por esperar mas eu ainda não posso dizer o que gostei sob risco de estragar a surpresa...

TINHA POUCO SALMÃO DEFUMADO e poucas cerejas este ano nas bocas livres. Me ressenti enormemente disso pois é lá que coloco em dia minha ânsia interior por estes dois artigos. Só no ano que vem. Ou será que eu estava nos lugares errados?

MUITOS BRASILEIROS em Cannes como sempre. Fizemos uma noite muito agradável no apartamento de Fabiano Canosa. É ótimo encontrar lá durante 10 dias gente que acabo nunca vendo durante o ano aqui no Brasil. Já ouvi esta afirmação corretíssima: " Cannes é ótimo para colocar em dia os contatos brasileiros!!".

(Eu mais Adhemar Oliveira e Patrícia Durães, formamos o Trio Calafrio do Festival de Cannes. Sempre alertas como bons escoteiros e sempre muito, muito cansados desse circo todo!!).

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